11 de setembro

Memorial em homenagem aos mortos em ataques será inaugurado no domingo
Nomes das vítimas, incluindo os de brasileiros, estão imortalizados em placas nos parapeitos de dois espelhos d'água.

Publicação: 09/09/2011 13:19

O coração de Nova York foi marcado pelo terror: cheiro de metal derretido misturado ao de corpos carbonizados ficou impregnado na memória das pessoas que testemunharam a barbárie (Lucas Jackson)
O coração de Nova York foi marcado pelo terror: cheiro de metal derretido misturado ao de corpos carbonizados ficou impregnado na memória das pessoas que testemunharam a barbárie

Nova York — A cidade marcada pelo terrorismo inaugura um tributo a seus mortos uma década após o trágico atentado às Torres Gêmeas. As 2.976 vítimas do 11 de setembro de 2001 e os mortos pela explosão de um carro-bomba na garagem subterrânea do World Trade Center, em fevereiro de 1993, serão homenageados com um Memorial erguido no Marco Zero. O monumento consiste em dois espelhos d’água posicionados exatamente no perímetro das torres que sucumbiram aos aviões pilotados por terroristas da Al-Qaeda.

Em vez de abrigar novas edificações suntuosas, as áreas passarão a ser um lugar para reflexão. As grandes instalações, com cascatas internas permanentes de 30m de altura, simbolizam a ausência e a saudade infinitas. Foram criadas pelo arquiteto Michael Arad para representar a memória das vítimas. Trata-se de uma praça concebida como espaço de convivência para moradores da cidade e turistas que visitam a metrópole.

Ao redor do Plaza Memorial foram plantadas árvores de carvalho. Uma se destaca por fazer parte da história: uma espécie pêra callery, típica da América do Norte, foi retirada dos escombros e replantada como símbolo de resistência. É conhecida como “árvore sobrevivente”. O memorial será aberto no próximo domingo, apenas para parentes e amigos dos mortos, durante a cerimônia que marcará o décimo aniversário do pior ataque terrorista da história dos Estados Unidos. No dia seguinte, o monumento receberá o público em geral. Nos primeiros meses, no entanto, será preciso agendar a visita pela internet, no site oficial (www.911memorial.org).

O ingresso é gratuito, mas a Fundação 9/11 sugere um donativo entre US$ 10 e US$ 100 — ou qualquer valor acima desse montante, por livre escolha. As reservas foram abertas em 11 de julho, dois meses antes da inauguração. Apenas nas primeiras 24 horas, o sistema registrou 42 mil pedidos de agendamento. Um dos detalhes principais é a distribuição das identificações das vítimas, que não seguiu a tradicional ordem alfabética. Os nomes foram inscritos em letra vazada no parapeito de bronze dos dois espelhos d’água.

À noite, a luz passará entre os nomes, criando uma belíssima sensação de que cada pessoa está sendo iluminada. O brilho cria um espetáculo com a tragédia. Cada nome poderá ser localizado por um guia que será disponibilizado para smartphones e tablets, em inglês, espanhol, alemão, mandarim e japonês. A disposição dos nomes leva em conta o local onde a pessoa morreu e as relações afetivas e familares com outras vítimas, de forma que colegas de trabalho, mães, pais e filhos, por exemplo, estão próximos.

Os paulistas Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa, 30 anos, e Anne Marie Sallerin Ferreira, 29, e a mineira Sandra Fajardo Smith, 37, estão entre os homenageados. Os nomes de Ivan Kyrillos e de Anne Marie estão inscritos lado a lado no parapeito do Espelho Norte. As duas trabalhavam na corretora de valores Cantor Fitzgerald, no 104º andar da Torre Norte, a primeira a ser atingida pelo Boeing da American Airlines. Sandra também foi homenageada na Torre Norte, mas no lado oposto da margem. Ela trabalhava na empresa Marsh & McLennan Companies, localizada entre os andares 93º e 99º, justamente os atingidos pela aeronave. Sandra foi registrada ao lado da colega jamaicana Stephanie Veronica Irby.

Escombros
Os espelhos d’água ocupam oito dos 16 hectares da superfície original do World Trade Center. Na área, será inaugurado em setembro de 2012 o Museu Nacional do 11 de Setembro. O acervo inclui fotos dos quase 3 mil mortos, depoimentos de parentes, objetos encontrados nos escombros e imagens do atentado, além de instalações artísticas. “Nossa missão é dupla: criar um memorial no próprio local dos ataques, onde as pessoas venham para honrar aqueles que morreram em 11 de setembro e refletir sobre a compaixão e a humanidade, e criar um museu memorial, onde as pessoas não apenas examinem o que aconteceu naquele dia, mas também o porquê e o que isso significa para o nosso futuro”, explica o presidente da Fundação World Trade Center, Joe Daniels, na página oficial da entidade.

O memorial e o museu vão compor um complexo com mais cinco prédios. No total, serão sete edifícios, a mesma quantidade que havia antes do atentado, em 2001. O destaque é o 1WTC, a Freedom Tower (Torre da Liberdade), cuja inauguração está prevista para 2014. O arranha-céu será ainda mais alto que as Torres Gêmeas, com 541m — ou 1776 pés, na unidade de medida mais usada no país, um número que corresponde ao ano da independência dos Estados Unidos. Com 108 andares, será o prédio mais alto de Nova York. O complexo voltará a ter, dessa forma, o ponto de mais visibilidade na parte sul de Manhattan, uma tentativa de demonstrar que, pelo menos no concreto, os Estados Unidos conseguiram se reerguer.

A repórter viajou a convite da X-Mart, American Airlines, NYC & Company e dos hotéis The Surrey e Mandarin Oriental

DEPOIMENTO - VICENTE NUNES
"Vamos para a guerra"


Dez anos depois, não tenho dúvidas em afirmar: o 11 de setembro de 2001 foi o dia mais espetacular da minha vida de jornalista. Jovem correspondente do Correio em Nova York, tinha programado um dia de folga para apresentar a cidade a uma amiga, Carla Falcão, do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, com quem tinha dividido uma ampla cobertura sobre eventos relacionados ao Brasil. A única exceção de trabalho, naquela terça-feira ensolarada, seria uma entrevista por telefone, marcada para as 8h30, com a médica brasiliense Valéria Guimarães, que receberia um prêmio em Washington.

A doutora Valéria falaria comigo no intervalo entre o voo de Miami à capital dos EUA. E, como combinado, o telefone tocou em casa. Da escrivaninha do quarto podia ver a televisão sintonizada no canal New York One, ao qual assistia religiosamente para saber tudo o que acontecia na cidade. Foi entre uma anotação e outra da conversa que me deparei com as imagens de um avião atingindo a primeira das duas torres do World Trade Center (WTC). Fiquei atônito. Pedi um minuto à entrevistada para ouvir mais de perto o que o locutor anunciava. As informações ainda estavam truncadas e se apostava em um acidente. Mas, ciente de que algo de muito ruim havia acontecido, voltei ao telefone e pedi à doutora que nos falássemos no fim do dia — conversa que só foi retomada dois meses depois.

Daquele momento em diante, os fatos ganharam uma dimensão extraordinária, marcando minha vida para sempre. Vi, pela tevê, a segunda torre do WTC sendo atacada pelos terroristas. Não pensei duas vezes. Chamei por Carla, que estava se aprontando para o passeio que havíamos combinado, e disse, taxativo: vamos para a guerra. Na saída de casa, ainda consegui avisar o jornal que estava me deslocando em direção às Torres Gêmeas, contato que só seria restabelecido no fim do dia, pois o serviço telefônico de Nova York havia sofrido uma pane. Várias das antenas que davam cobertura aos celulares estavam no topo dos edifícios em chamas.

Na esquina da minha rua, a 64 Street, o que vi foi um cenário de filme. Uma multidão olhava para o céu, coberto por uma fumaça muito escura. As expressões eram de terror. Com Carla ao meu lado, atravessei a rua e tentei entrar em um táxi para chegar mais rápido ao sul da ilha de Manhattan para ver o que realmente estava acontecendo naquele que era um dos cartões postais mais famosos do mundo. Não consegui nem entrar no veículo. Ao dizer para onde ia, o motorista gritou: “Vocês estão loucos? A cidade está parada. Não há como irem lá”. Corremos para o metrô. Nem passamos da porta. O transporte havia sido interrompido por questão de segurança.

O jeito foi descer toda a Primeira Avenida a pé. À medida que nos aproximávamos do WTC, a sensação era de que o inferno estava a nossa espera. Éramos os únicos a irem naquela direção. Todos queriam fugir dali. A fumaça ficava cada vez mais intensa. Cobertas de fuligem, muitas pessoas gritavam por socorro. Veio o primeiro estrondo: a Torre Norte, a segunda a ser atacada, estava desabando. Além da fumaça, as ruas foram tomadas por uma nuvem de poeira sufocante.

Já próximos do centro financeiro em que o WTC se destacava por sua imponência, nos deparamos com as primeiras barreiras policiais. Por estarem tão atônitos quanto nós e com tanta gente correndo para lá e para cá em busca de proteção, eu e Carla conseguimos furar o cerco. Mas fomos obrigados a recuar. A outra torre já começava a ruir. E não demorou para, novamente, um barulho ensurdecedor tomar conta da ilha, abafando o som dos caças da Força Aérea norte-americana que cruzavam os céus da cidade.

O horror tinha se espalhado. Separei-me de Carla, cada um com a missão de levantar o maior número possível de informações. Ouvi relatos estarrecedores, gritos de desespero. Vi pessoas com a orelha cortada, braços pela metade, gente coberta de sangue e poeira. No fim da tarde, com jornalistas de todo o mundo, consegui me aproximar do buraco onde ficava a torre Sul do WTC. O cheiro de ferro derretido e de corpos esturricados quase impedia a respiração. As imagens daquele cenário de destruição me atormentaram por meses e, ainda hoje, me sobressaltam.

Mas o pior ainda estava por vir. Tive de percorrer hospitais, cemitérios e centros de assistência às famílias que foram destruídas pela violência inexplicável do terrorismo. Os relatos doíam na alma. Pais que morreram sem conhecer os filhos que estavam prestes a nascer. Pais que desfrutavam o orgulho das primeiras conquistas profissionais dos filhos que trabalhavam no World Trade Center. A filha que rezava dia e noite pela recuperação da mãe, engolfada por uma bola de fogo. A viúva do bombeiro que simplesmente evaporou, deixando seis filhos órfãos. Essa viúva, Heloíza Asaro, havia descoberto, dias antes de seu marido, Carl, desaparecer, que estava com câncer. Felizmente, Deus lhe deu mais 10 anos de vida para cuidar dos bens mais preciosos deixados por Carl.

Dez anos depois, já sem as obrigações de correr atrás das informações que todos ansiavam por ver nos jornais e de não ter de brigar com as autoridades norte-americanas — jornalista brasileiro não era nada; toda a prioridade no atendimento era para os profissionais dos Estados Unidos e da Europa —, ainda me pego de olhos marejados ao observar as fotos e de rememorar as histórias de quem, naquela terça-feira ensolarada de 11 de setembro de 2001, viu de perto o inferno.

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