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Publicação: 07/09/2011 10:08
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Nos primeiros anos do período de colonização europeia no Norte e Nordeste do Brasil, o Maranhão e seu vasto litoral com 640 quilômetros de extensão era densamente ocupado por diversos grupos indígenas, entre eles os Tupi e os Tremembé.
Com um território do tamanho da França, rios como o Itapecuru, Mearim, Grajaú, Gurupi e Parnaíba, que também abrigavam populações indígenas, foram utilizados como vias naturais de penetração do europeu no território colonial.
Mas quando os franceses chegaram a grande ilha do Golfão Maranhense, já nos anos de 1.600, a realidade era outra.
Em 100 anos o cenário mudou completamente e quando vieram os franceses, na ilha, existiam 27 aldeias com aproximadamente 12 mil pessoas, majoritariamente, do povo Tupinambá, que fugiam do contato com portugueses e seriam originários do litoral de Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte.
Japiaçu era o grande líder dos Tupinambá da ilha e deixou relatos aos franceses sobre o processo de crescente aproveitamento da mão de obra indígena para a exploração do pau-brasil, até chegar à escravização direta. “Essas 27 aldeias que existiam aqui em São Luís [quando os franceses chegaram] eram de grupos que em grande parte vieram de outros locais para cá. Então a gente tem esse cenário que não é muito simples; ao contrário, eram muitas culturas, muitas línguas, muitas práticas culturais diferenciadas e o fato de a gente englobar como se fosse uma só coisa, é uma das grandes deformações da perspectiva histórica”, afirma o diretor do Centro de Pesquisa da História Natural e Arqueologia do Maranhão, Deusdèdit Carneiro Leite Filho.
Como viviam os Tupinambá
Os Tupinambá viviam da horticultura, caça e pesca, e orientados por um complexo universo mágico, destacando-se o mito da “Terra sem Mal” – o paraíso Tupinambá onde não haveria guerras, fome ou doença – e a prática do canibalismo ritualístico, na qual os guerreiros comiam partes do corpo do derrotado para a “incorporação das virtudes” do inimigo. Eles enfeitavam seus corpos com pinturas, adornos de penas e adornos labiais, como também – era um padrão de beleza – achatavam os narizes dos recém-nascidos.
Por algum tempo, a Upaon Açu deve ter correspondido aos anseios dos índios, mas só por algum tempo. Os Tupinambá foram gradativamente aniquilados por epidemias, guerras e escravidão ainda nos primeiros anos da colonização portuguesa. “Os europeus trouxeram estoques de vírus e bactérias para os quais os índios não tinham resistência. Houve também o próprio aniquilamento físico dos grupos que não se submetiam à escravidão”, conta Deusdèdit Filho.
Relatos dos Capuchinhos
Grande parte da história da chegada dos franceses é conhecida por meio das tentativas de estabelecer uma colônia na América – a França Equinocial – e dos relatos que foram deixados pelos padres Claude d’Abbeville e Yves d’Évreux. Eles registraram detalhes minuciosos a respeito das populações que aqui viviam.
Claude d'Abbeville foi um religioso e entomólogo francês. Participou da expedição enviada em 1612 ao Maranhão, junto com seu amigo Yves d’Évreux. Eles identificaram e batizaram com nomes indígenas diversos insetos, tais como as grandes borboletas azuis, as mutucas e mosquitos. D’Abbeville e autor da obra “História da missão dos padres capuchinhos na ilha de Maranhão e terras circunvizinhas”, de1614; já d’Évreux escreveu “Viagem no norte do Brasil”, em 1615.
Existem duas grandes vertentes de estudo no Centro de Pesquisa de História Natural: a arqueologia pré-colonial, que estuda os grupos que aqui estavam antes da chegada dos europeus e a arqueologia histórica, que se funda a partir da nova dinâmica que o explorador europeu impõe à região. Este trabalho lida também com fontes escritas e fontes orais, diferentemente da arqueologia pré-histórica, que lida principalmente com os restos arqueológicos.
PALAVRA DO ESPECIALISTA
“Nós como maranhenses somos frutos de um processo pluriétnico e a herança indígena ficou muito bem representada por uma série de valores que nós temos, como a farinha d’água, o dormir em rede; muitos desses valores estão presentes não só na nossa língua, não só na nossa cultura, mas muita vezes na nossa própria visão de mundo. Alguns eruditos viam nos indígenas relações democráticas em que o discurso e a tradição oral eram muito importantes; viam valores que o europeu tinha perdido, com seus governos despóticos, a escravização; então algumas pessoas virão valores também de pureza e liberdade nesse universo indígena. O brasileiro como todo reconhece essa contribuição, mesmo em áreas que sofreram um processo mais recente de migração dos europeus; na culinária, por exemplo, a mandioca, o urucum, o milho; a contribuição indígena na alimentação foi fantástica”.
Deusdèdit Carneiro Leite Filho,
Bacharel em Antropologia, mestrando em Pré-História e diretor do Centro de Pesquisa História Natural e Arqueologia do Maranhão desde a sua fundação, há dez anos.
História natural
O Centro de Pesquisa em História Natural e Arqueologia do Maranhão fica na Rua do Giz, 59, Praia Grande; e está aberto à visitação de segunda a sexta-feira; das 8h às 12h e das 14h às 18h. Além de Arqueologia, o Centro também oferece conhecimento em Paleontologia, como exposição de fósseis de dinossauros encontrados na Ilha do Cajual, próxima da cidade de Alcântara, retirados do sítio chamado de Laje do Coringa.
Número 3%
Contribuição dos homens índios para a formação da população de São Luís conforme o estudo Frequência Alélica do Locus DYS 199-T
A contribuição paterna indígena
Em 2005, a então estudante de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Maranhão, Magda Helena Nogueira Barbosa, concluiu o curso com um estudo chamado “Frequência Alélica do Locus DYS 199-T na População de São Luís”. Tratava-se de estudo da área de genética de populações que pretendia descobrir qual a contribuição dos homens índios para formação da população ludovicense.
Para investigar a questão foi utilizado um marcador genético, o DYS 199-T, que é encontrado comumente no cromossomo Y (só nos homens) de indivíduos descendentes ou de populações ameríndias. O mesmo marcador genético também é encontrado com frequência em populações de esquimós, no extremo norte do continente americano, o que reforça a tese de que as populações que primeiramente povoara a América são descendentes de asiáticos que atravessaram o estreito de Bering.
No trabalho da bióloga Magda Barbosa ficou constatado que esse mesmo marcador é encontrado em 3% da população de São Luís, o que também reforça o contexto histórico de dominação do europeu sobre os indígenas, e a própria estratégia de colonização portuguesa que contou principalmente homens chegando ao Brasil. “Nós recolhemos amostras de sangue de mais de 400 indivíduos homens e usamos a técnica de migração de genes por eletroforese”, explicou.
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