política

MENSALÃO » Conheça a história de vida do ministro Joaquim Barbosa
Nascido no bairro pobre da pequena Paracatu, o ministro do STF Joaquim Barbosa é motivo de orgulho, com fotos espalhadas por toda a cidade mineira.

Helena Mader

Publicação: 08/10/2012 07:53

Marlene Costa, professora de estudos religiosos no município e prima de Joaquim Barbosa, faz questão de usar o exemplo do parente para incentivar as novas gerações  (RONALDO DE OLIVEIRA/CB/D.A PRESS)
Marlene Costa, professora de estudos religiosos no município e prima de Joaquim Barbosa, faz questão de usar o exemplo do parente para incentivar as novas gerações
Paracatu — Na diretoria da escola estadual Dom Serafim, um porta-retratos de moldura prateada chama a atenção em meio a listas de chamada e livros didáticos. Nele está a fotografia de um homem negro, engravatado e com a expressão sisuda. As crianças de origem simples que por ali passam diariamente se orgulham da imagem exposta no colégio. Os poucos que desconheciam a identidade daquele cidadão com ares de autoridade agora não hesitam em proclamar, com certa intimidade: “É o ministro Joaquim Barbosa”. O mais ilustre ex-aluno da escola Dom Serafim virou celebridade não só entre os estudantes da instituição, localizada em um bairro pobre do município mineiro de Paracatu. Na terra natal do relator do mensalão, sua fotografia e histórias estão em toda parte. Nas praças e ruas de pedra da pacata cidade histórica, marcada pelo ciclo do ouro, familiares e conterrâneos de Joaquim Barbosa reveem a trajetória do futuro presidente do Supremo Tribunal Federal — que completou 58 anos ontem.

Barbosa passou a infância no bairro do Santana, bem próximo à Igreja Matriz de Santo Antônio, principal ponto turístico do município. No terreno da Rua Espírito Santo, onde viveu até os 16 anos, ainda estão alguns familiares do ministro, como primos e um tio paterno. A casa de seus pais foi demolida e deu lugar a uma construção de dois andares, hoje ocupada por integrantes de um movimento de luta pela moradia. Na fachada, está pendurada uma bandeira vermelha.

Joaquim Barbosa nasceu em uma família bastante carente, que valorizava a educação. Ainda menino, ele ajudava o pai, dono de uma olaria. Mas perdia noites e noites sobre os livros, seus companheiros inseparáveis. Outro amigo de todas horas e parceiro de peladas era Bordan, que hoje, aos 54 anos, em nada lembra um atleta da bola. “Pois é, com esse meu peso todo ninguém consegue imaginar que eu era um craque”, reconhece, aos risos, Benedito Conceição Fernandes Pinto. Conhecido na cidade apenas pelo apelido, Bordan vive até hoje na mesma casa simples que divide com a família, bem próximo da antiga residência do ministro.

Nas ruas de Paracatu não há quem não sinta orgulho do futuro presidente do STF  (RONALDO DE OLIVEIRA/CB/D.A PRESS)
Nas ruas de Paracatu não há quem não sinta orgulho do futuro presidente do STF
“Nossas mães eram amigas e iam à igreja juntas, por isso ficamos próximos. Eu trabalhei na olaria do pai dele e, sempre que a gente tinha um tempinho, jogava bola com a turma do bairro. Tinha um time da Capelinha e ele (Joaquim) era craque”, relembra Bordan. Mas algo ficou marcado na lembrança do melhor amigo de infância do ministro Joaquim Barbosa: a obstinação do antigo vizinho. “Eu tinha certeza de que ele ia ser alguém na vida, porque o tanto que ele estudava não tinha lógica, não. Ele trabalhava, mas virava a noite com os livros. Era uma inteligência fora do comum.”

Entre as melhores lembranças de Bordan estão as brincadeiras às margens do Córrego Rico, onde a criançada de Paracatu costumava nadar e pescar. Hoje, poluído e degradado, o curso d’água ainda era límpido quando ele e Joaquim Barbosa se divertiam mergulhando no local. “Ele foi o melhor amigo que eu tive. Quando você é criança, não tem maldade, não tem interesses. É amizade de verdade”, conta Bordan, emocionado. E de onde vem esse apelido? A pergunta gera uma instantânea gargalhada. “Você não vai acreditar, mas foi o Joaquim que começou com essa brincadeira. E pegou tanto que hoje ninguém me conhece como Benedito”. Os dois amigos brincavam na beira da estrada nos anos 1960 quando passou um caminhão frigorífico da empresa paulista Bordon. “Eu ainda não sabia ler direito e, em vez de Bordon, eu li Bordan, em voz alta. O Joaquim achou engraçado e passou a me chamar dessa forma. O apelido pegou.”

Orgulho
Marlene Costa, 55 anos, é professora de estudos religiosos em uma escola pública de Paracatu. Prima do ministro Joaquim Barbosa, ela também ostenta na casa humilde um porta-retratos com a imagem do parente célebre. E não esconde a enorme satisfação com o reconhecimento público do primo. “Eu ligo a tevê e dou de cara com ele. Saio na rua e ouço as pessoas comentando seu trabalho no julgamento do mensalão. Se eu dissesse que não sinto um orgulho enorme, estaria mentindo”, revela a professora. No início da década de 1970, quando Joaquim Barbosa deixou Paracatu sozinho para tentar mudar de vida em Brasília, ela já estava certa de que o primo conseguiria vencer. Mas jamais poderia imaginá-lo como um dos homens mais importantes da República. “Quando ele tomou posse no Supremo, nos mandou convite. Fomos lá prestigiá-lo porque ele merece. Um homem negro, pobre, que vira ministro, é impossível não se emocionar.”

A professora e sua família também se mudaram para Brasília pouco depois. A mãe de Joaquim Barbosa e todos os irmãos seguiram a mesma rota. Ele vivia em uma República no Plano Piloto, e a mãe, em uma chácara no Guará. “No fim de semana, a gente juntava aquela meninada toda em um caminhão e ia fazer piquenique. Quando a família dele se mudou para o Gama, ele, com uma turma de Paracatu, criou um time de futebol chamado Santaninha, em referência ao bairro do Santana, onde ele cresceu. Futebol era a diversão principal, mas minha principal lembrança dele era com os livros embaixo do braço o tempo inteiro”, conta a prima.

Depois de concluir o ensino médio no Elefante Branco, Barbosa foi aprovado no vestibular de direito da Universidade de Brasília. Nessa época, circulava pela cidade em um fusquinha creme, que ele mesmo apelidou de Burro Baio. Com o diploma da UnB e o título de doutor em direito público, conquistado em sua temporada em Paris, a carreira decolou. Foi oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores e serviu na Embaixada do Brasil na Finlândia. Sonhava em ser diplomata e se dedicou com afinco para o concurso do Instituto Rio Branco. Teve sucesso em todas as etapas, mas acabou reprovado na entrevista — fracasso que sempre atribuiu ao racismo dos responsáveis pela seleção. Integrou o Ministério Público Federal em Brasília e no Rio de Janeiro, onde viveu por cerca de uma década. “Ele é apaixonado pelo Rio, é lá que ele gosta de estar. Até hoje a secura de Brasília castiga o Joaquim”, revela Marlene Costa.

Próxima sessão
O julgamento da Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal será retomado na próxima terça-feira. Os ministros não marcaram sessão para amanhã por causa das eleições municipais. Alguns deles têm domicílio eleitoral fora de Brasília e retornam à capital somente hoje.
Compartilhe
| Mais

Envie sua história e faça parte da rede de conteúdo dos Diários Associados.
Clique aqui e envie seu vídeo, foto, podcast ou crie seu blog. Manifeste seu mundo.