Mais do mesmo
O pronunciamento de George W. Bush — aguardado com grande expectativa nos cinco continentes — frustrou pela manutenção da belicosa política no Iraque. Depois da fragorosa derrota do Partido Republicano nas eleições legislativas de novembro (atribuída em boa parte ao fiasco em Bagdá), esperava-se que a Casa Branca se empenhasse na correção de rumos: apresentasse projeto capaz de apaziguar o país invadido e, ao mesmo tempo, responder à opinião pública americana expressa nas urnas.
Seria fórmula de atingir dois objetivos. De um lado, a retirada gradual das tropas estrangeiras do território da antiga Mesopotâmia. De outro, a convivência de xiitas, sunitas e curdos. Os três grupos se digladiam em disputa sangrenta que envolve religião, poder, petróleo e vingança. A execução desastrada de Saddam Hussein transformou o antigo ditador em mártir. É mais lenha na fogueira.
Bush propõe combater a violência com mais violência. Vai mandar mais 21.500 soldados para o Iraque. A proposta ignora importante estudo anterior. Há oito meses, o Congresso criou grupo bipartidário para traçar planos capazes de retirar os Estados Unidos do atoleiro em que se afundaram no Oriente Médio. James Baker, secretário de Estado no governo Bush pai, chefiou informalmente a equipe. Ligado à família presidencial, ele atuou como advogado na confusão de votos na Flórida, que deu a duvidosa vitória a George W. Bush na eleição de 1998.
Entre as recomendações, propunha a saída gradual das tropas americanas do Iraque, medida que vem ao encontro do clamor popular ouvido nas urnas. Propunha, também, diálogo direto com o Irã e a Síria, nações com influência direta sobre os acontecimentos em Bagdá. Bush ignorou as sugestões. Rechaçou o diálogo e impôs a própria estratégia. Em vez de retirar, manda mais homens para o campo de batalha. Em lugar da negociação, apela para a força.
Ele aposta na violência porque confia no arsenal de que dispõe — infinitamente superior ao do inimigo. Não levou em conta, porém, que a questão no Iraque não é militar, mas política. O remédio prescrito não responde à enfermidade. Daí por que bom número de generais americanos dizem que o incremento da força não colaborará para a paz. Servirá, sim, de combustível para incentivar a chacina que se amplia dia após dia.
A alternativa para a barbárie é a convivência dos três grupos. Bush se nega a buscá-la. Delega a missão às próprias partes em conflito. Prefere o mais do mesmo. O resultado não será diferente do espetáculo de horror que o mundo presencia desde 2003 — a menos que a nova maioria de oposição no Congresso consiga dobrar a intransigência da Casa Branca com a arma de que dispõe: a chave do cofre.
Brasil: um país assimetricamente pobre
José Lemos
é Professor da Universidade Federal do Ceará
Nas fronteiras da vastidão do território brasileiro submerge uma grande assimetria, no que concerne ao padrão de vida da sua gente. Até este ponto, não há qualquer novidade. A novidade emerge quando se consegue aferir o tamanho dessa desigualdade e da pobreza, e de que forma elas se espraiam por este país, disseminando contrastes, e fomentando desesperança. A pobreza deve ser caracterizada como a privação de renda mínima que possa ser convertida na aquisição de bens materiais para salvaguardar necessidades, conforto e lazer. A pobreza também se constitui na privação de acesso a serviços essenciais que o Estado tem a obrigação de prover. Entendida nestas perspectivas, a pobreza se dissemina de forma cruelmente desigual neste pais. Com efeito, o IBGE divulgou ao final do ano passado o PIB per capita de todos os municípios brasileiros, referente ao ano de 2004. Naquele ano o PIB per capita do Brasil era de R$9.729,11. Pois bem, dos 5.637 municípios brasileiros, apenas em 1.317 (23,3%) o PIB per capita superava este patamar. Por outro lado, o menor PIB per capita do Brasil, assumia o valor de R$763,36 e ficava no município de Apicum-Açu, no estado do Maranhão. Entre os 100 municípios brasileiros que apresentaram as piores performances, neste indicador, observa-se que todos posicionavam-se nas regiões Nordeste, de forma predominante, e Norte do Brasil. Com efeito, o Maranhão é o estado brasileiro recordista de ter municípios assentados entre os 100 de menor renda do Pais. Em 2004, desses 100 municípios de menor renda, 57 eram maranhenses, 25 cearenses, 10 alagoanos, 4 paraenses, 2 baianos, um piauiense e um do estado de Tocantins. Em 2002 o Maranhão tinha 89 dos seus municípios neste rol de municípios de menor PIB.
No outro extremo, o município de maior PIB per capita chama-se São Francisco do Conde que, paradoxalmente, situa-se em um dos estados mais pobres do Brasil, que é a Bahia. Neste município, o PIB per capita anual é de R$315.208,10. Ou seja, no maior PIB per capita do Brasil cabem 413 PIBs daquele de menor magnitude. Constata-se ainda que estes municípios de maior renda situam-se, predominantemente, no Sudeste, no Sul e no Centroeste do Brasil, mas tem representantes no Nordeste, como se viu acima, e no Norte. São Paulo tem 27 dos seus municípios alinhados neste grupo. No Rio Grande do Sul ficam outros 16, e em Minas Gerais encontram-se 12 desses municípios.
Por outro lado, observa-se que a escolaridade média das regiões Sudeste e Sul é bem superior àquela observada no Nordeste e no Norte. A última informação da PNAD/IBGE que se refere ao ano de 2005 nos permite estimar uma escolaridade média para o Sudeste de 7,82 anos, e de 7,56 anos para a região Sul. No Nordeste a escolaridade média é de 5,79 anos, e a escolaridade média do Norte é de 6,44 anos. Um outro indicador da desigualdade que prevalece no Brasil, refere-se ao percentual da população maior de 10 anos que declarou-se analfabeta, ou tendo menos de um ano de escola. Na região Sul a taxa de analfabetos maiores de 10 anos é de 6,54%. No Sudeste este percentual é de 7,24%. No Nordeste os analfabetos maiores de 10 anos representam 19,02 % da população nesta faixa etária, e no Norte este percentual chega a 10,83%.
Estes são indicadores dos desafios que temos pela frente neste inicio de Governos nos estados e no Brasil. A educação deve ser a grande prioridade deste pais. Ela se constitui no instrumento que cria as condições para a força de trabalho qualificar-se, informar-se e auferir maiores rendimentos. Não há como pensar numa Nação livre e democrática com padrões tão desiguais de pobreza, e com assimetria tão evidente de acesso ao conhecimento, à renda, e a tudo o que este acesso pode representar, em termos de conquistas e de libertação social, econômica e política.
Avançar radicalmente na escolaridade, e na redução dramática das taxas de analfabetismos, se constituem em passos fundamentais para que se consiga reduzir essas desigualdades. Há uma relação muito forte entre a capacidade de auferir renda e o padrão educacional. Com base na PNAD de 2005, estimamos que acréscimos de um ano de escolaridade média no Brasil, induz a um crescimento médio do PIB per capita anual de R$350,00. Por outro lado, a redução em 1% da taxa de analfabetismo, induz, em média, o crescimento de R$60,68 na renda média. São indicadores que sinalizam para quem toma decisão de políticas públicas que a educação é o começo de tudo.
O Governo Federal está acenando com um Programa de Aceleração do Crescimento Econômico (PAC), que ainda não está bem claro do que se trata. Mas esta aceleração do crescimento econômico, deve passar primeiro por investimentos substanciais em educação no Brasil, diminuindo radicalmente as diferenças regionais. Há um pequeno alento neste aspecto, tendo em vistas que em todos os estados do Nordeste, no período compreendido entre os anos de 2003 e 2005 houve uma aceleração mais acentuada da escolaridade média do que nas demais regiões. Mas este se constitui apenas no começo do processo que levará os brasileiros a serem menos desiguais. Qualquer plano de desenvolvimento econômico para o Brasil deve privilegiar, além do crescimento do produto agregado, a sua apropriação mais eqüitativa. O desafio será como fazer com que as populações dos 77% municípios brasileiros, cujas rendas médias são menores do que a média brasileira, possam ter a condição de auferir maiores patamares de rendimentos monetários, de tal sorte que esta distribuição se torne mais justa. Não podemos admitir que exista num País, como o nosso, pessoa cuja renda seja 413 vezes menor do que a observada dentro das suas próprias fronteiras.
Anjos, demônios
e bode expiatório
Roberto Paschoali
Diretor da Evolve Gestão
roberto.paschoali@evolvegestao.com.br
A disputa entre a ministra do Meio Ambiente, Marina da Silva, e a da Casa Civil, Dilma Rousseff, dá uma idéia muito clara da pouca eficácia do governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva no que concerne aos planos de desenvolvimento econômico do Brasil. É inadmissível atribuir a culpa ao ministério do Meio Ambiente pelos entraves que tem levado a economia brasileira quase à estrangulação pela falta de investimentos nos setores de infra-estrutura.
O meio ambiente sofre do mesmo mal que sofreu a religião na primeira metade do século passado; muita gente acreditava que a religião poderia ser descartada sem qualquer conseqüência para a vida das pessoas. Mesmo Freud dizia que a religião era uma neurose e tornava o ser humano infantilizado. Hoje em dia, uma grande parte das pessoas acredita que não há relação plausível entre humanidade e o meio ambiente, porém, este é fundamental para a preservação física e moral dos seres humanos e a religião pela edificação de suas almas.
René Girard acredita piamente que existe um ponto em comum entre as religiões arcaicas que poderia ser identificada, em termos modernos, como o ritual do sacrifício ou a violência.
As pessoas discordam dessa teoria porque nem todos os rituais apresentam violência. Mas a violência está presente na mitologia, na bíblia, na empresa, no governo e na forma como tratamos o meio ambiente. Jesus Cristo e Dionísio têm a mesma história, o mesmo martírio, a mesma morte violenta. A diferença é a interpretação que se dá para cada caso.
No caso de Dionísio, a interpretação é que as vítimas são culpadas. No caso da Bíblia, as vítimas são inocentes reconhecidamente. Na cultura ocidental nós fomos educados a sempre buscar um bode expiatório para nossos fracassos. Nas culturas arcaicas esses fracassos eram solucionados oferecendo esse bode expiatório em sacrifício para se reconciliar com os deuses e com seus vizinhos.
Pilatos gostaria de ter salvado Jesus Cristo da crucificação, não porque ele era consciencioso ou por motivos espirituais, mas apenas para manter as aparências com as autoridades romanas. Ele não queria dar a idéia de que estava havendo um motim na sua administração. Contudo, ele sabia que multidões podem trocar de vítimas facilmente e por isso ele oferece Barrabas em troca de Jesus.
Quando fracassa sua tentativa, Pilatos lava suas mãos e entrega Jesus à multidão que passa a insultar e humilhar o seu bode expiatório. A Paixão de Cristo ilustra o fenômeno que Girard chama de desejo mimético. O fenômeno que contagia as pessoas que passam a influenciar umas as outras.
O bode expiatório do malfadado e pífio crescimento econômico do Brasil já foi escolhido: a ministra do Meio Ambiente, Marina da Silva que estaria impedindo o desenvolvimento ao defender o meio ambiente. A partir de agora, ela passará a ser imolada pela multidão de incapazes que habita o Palácio do Planalto, a Esplanada dos Ministérios e a cúpula do Partido dos Trabalhadores. Felizmente, existem anjos dentro e fora do Brasil que estão dispostos a defender com unhas e dentes o meio ambiente, mas existem muitos demônios que buscam o lucro fácil e vão pressionar o governo a entregar a natureza em uma bandeja. Vamos esperar que o “Pilatos” da ministra Marina da Silva seja mais consciencioso do que foi o de Jesus e que perceba que o verdadeiro algoz do povo brasileiro tem sido a incompetência dos homens das áreas econômica, planejamento e Banco Central e não da mulher do Meio Ambiente e defensora da natureza.
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